Síndrome do Preconceito e a Tourette

A Tourette ainda não tem cura, mas a ignorância sim!

*Natália Raposo

Eu li A Maldição de Tourette duas vezes, logo, eu sei bem todo o preconceito que Giba enfrentou durante toda a sua vida. Eu tenho milhões de amigos gays, e sei do preconceito que eles também enfrentam. Meu pai é negro, e tem muito racismo velado na nossa família. Minha mãe é mais velha que o meu pai, e o relacionamento deles não foi visto com bons olhos por muita gente durante um bom tempo. A filha da amiga da minha irmã nasceu com Tetralogia de Fallot (má formação congênita do coração) e também é vítima de preconceito dentro da família; gente cruel que discrimina uma mini pessoa só porque o coraçãozinho dela não funciona bem.
A humanidade é desumana e o fim do mundo é todo dia.
Eu tive sorte de nascer em uma família fora dos padrões ortodoxos. Não tenho recordação de os meus pais terem sentado comigo e com a minha irmã para dizer o que é certo e o que é errado, mas nós aprendemos com os exemplos, o que, para mim, tem muito mais valor. Foi a prática do dia a dia, foi a forma como cotidianamente eu vi meus pais agirem que me ensinaram valores dos quais eu destaco dois que considero os mais importantes: meu pai nos ensinou que poucas coisas na vida são tão desprezíveis quanto uma pessoa puxa-saco; e minha mãe nos ensinou a não discriminar ninguém, ninguém mesmo!
Nesse sentido, eu jamais discriminaria alguém porque tem Síndrome de Tourette, porque faz tiques, porque tem Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e outras doenças “acessórias” à ST.
Eu amo pessoas, beijos e abraços. Amo gente positiva, gente que sorri e emana boas energias. Não regulo o meu amor por um tique nervoso, pela cor da pele, condição social, orientação sexual ou prática religiosa. Amor faz bem, faz feliz, bota para frente. Afeto existe para ser compartilhado. Gosto de sorrisos sinceros, gosto de quem sorri com a alma.
Preconceito é veneno que mata quem sente.
Dia desses, soube que se referiram a Giba com preconceito. Primeiro fiquei com muita raiva. Como alguém pode ser tão ignorante assim? Junto vem a revolta: como alguém pode discriminar outro que já sofreu (e sofre) tanto por uma condição genética, por uma doença que não escolheu ter? Ninguém escolhe ter ST, ser vítima da intolerância alheia, fazer tiques que causam dores físicas, constrangimentos, que prejudicam a vida social, profissional e, não raro, afetiva. Ninguém escolhe ser segregado pela família, ser incompreendido, ser estigmatizado, tachado de doido, incapaz e outros “elogios” do mesmo nível.
O pessoal do grupo “Síndrome de Tourette, TOC e TDAH” disse que é preciso ter um espírito muito evoluído para deixar passar o preconceito cego sem se irritar ou se importar. Se for assim, meu espírito está longe de ser elevado. Há dias em que eu fico com preguiça de comprar brigas, mas acredito mesmo que gente esclarecida e consciente – como eu julgo que sejam os que agora me lêem – tem mais é que comprar todas as brigas do mundo, mesmo que seja parcelado no cartão de crédito. Não é porque alguém é ignorante hoje que precisa ser assim para sempre; não é porque é preconceituoso que precisa continuar sendo, nem reproduzindo preconceitos tão perigosos, sobretudo numa sociedade que vive uma onda conservadora, na contramão dos discursos de tolerância e de amor ao próximo.
E é por isso, por acreditar que as coisas podem sim mudar, que eu julgo tão necessário não se calar diante de comentários como os que me deixaram com raiva. As pessoas precisam saber o que é a Síndrome de Tourette, precisam saber como e por que ela surge, de que forma se manifesta, saber que a ST não é igual em todos os portadores. É urgente saberem que um tique nervoso não é engraçado, não é piada; que os portadores de ST sofrem, que têm angústias. Às vezes, em casos nos quais os tiques são leves, o portador de ST sofre muito mais pela percepção alheia do que por se incomodar, ele próprio, com os movimentos involuntários. As dificuldades de enquadramento no mundo dito normal passam, muitas vezes, mais pela superação da Síndrome do Preconceito do que pela Tourette.
*Natália Raposo escreve sobre Síndrome de Tourette, às sextas. Nos outros dias da semana pode ser encontrada aqui, ali e acolá: Um Pouco de Bossa, Dia de Sopa, Céu do Dia.
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3 comentários

  1. Tão complexa é a mente humana, mas se formos nos preocupar com o tudo que nos envolve, acho que nao viveriamos e sim apenas sobreviveriamos nesse mundo de gigantes (ignorântes).

    Carlos Henrique!!!

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  2. Natália Raposo escreve sobre Síndrome de Tourette ,às sextas, e nos outros dias da semana pode ser encontrada aqui, ali e acolá, mas sei onde ela se encontra, permanentemente, todos os dias e horas: em meu coração.
    Você se supera diariamente, Natália. Eu amo você, você ama meu filho, nós nos amamos.
    Rosa Maria.

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