Obsessões, compulsões e Síndrome de Tourette



*Natália Raposo
O problema é que a Síndrome de Tourette não anda sozinha. Quem tem Tourette ou convive com um portador da síndrome sabe que o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) é um dos melhores amigos da ST, uma “doença acessória”, o que os médicos chamam de comorbidade. Eu, que até outro dia pouco sabia sobre o TOC – além do fato de que Roberto Carlos tem a doença e de que uma de suas manifestações mais comuns é o ato de lavar as mãos em demasia -, hoje durmo e acordo ao lado de obsessões e compulsões frequentes, aprendendo dia a dia a conviver com elas e minimizar seus efeitos.
O TOC é um transtorno mental incluído pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação Psiquiátrica Americana (DSM-IV) entre os chamados transtornos de ansiedade. Ele altera o comportamento de quem possui o transtorno, em consequência das alterações de pensamento que ocorrem. Os pensamentos obsessivos (as obsessões) mais comuns são: preocupação excessiva com sujeira; pensamentos de simetria, ordem, alinhamento; hipocondria; mania de guardar coisas inúteis; superstições com cores, números, datas, horários…
Em resposta aos pensamentos obsessivos, a pessoa que tem TOC desenvolve as compulsões, ou seja, rituais, atos voluntários e repetitivos que devem ser seguidos rigidamente a partir de lógicas irracionais que só fazem sentido na cabeça de quem tem o problema. Realizar os rituais alivia a ansiedade associada às obsessões, como se fosse uma espécie de compensação, e, assim, segue-se um ciclo vicioso: obsessão > ritual > alivio temporário > obsessão > ritual > alívio…
Dessa forma, ao invés de superar aquilo que irracionalmente a aflige, a pessoa que tem TOC retroalimenta os próprios medos, tornando-se refém dos rituais.
Alguns rituais muito comuns são os ligados à limpeza, contagem, repetição de palavras, frases e números; estalar os dedos; bater de leve nas pessoas enquanto conversa; colecionar coisas; marcar datas, fazer listas; relembrar cenas e imagens constantemente, entre outros.
Eu não sei explicar por que praticamente todos os portadores de Tourette apresentam quadros de TOC, mas sinto que controlar os tiques pode ser até relativamente mais fácil que controlar o TOC. Giba (meu experimento vivo), por exemplo, toma remédios que, segundo a bula, servem para tratar o transtorno obsessivo-compulsivo enquanto distúrbio de ansiedade. Combinados, eles controlam quase totalmente os tiques, com a exceção de pequenos tiquezinhos que persistem, mas não acho que controlem o TOC tanto assim. 
Giba é conhecido por conferir quatro coisas antes de sair: chave, cigarro, celular e carteira. Antes de sair de casa (ou antes de sair de qualquer lugar), ele confere: “Um, dois, três, quatro”. Se a conta estiver certa, significa que não está faltando nada e que ele pode ir embora tranquilamente. Esse ritual é até engraçado e como não prejudica ninguém (nem a ele mesmo), deixe que ele confira seu kit TOC-sobrevivência como se não houvesse amanhã. De algumas outras compulsões ele tem conseguido se livrar, como da paranoia de checar o tempo inteiro se a porta da rua está fechada ou de ter o celular sempre por perto.
Muitos portadores de Tourette controlam (e até se curam, dizem) do TOC por meio de terapia cognitivo-comportamental, mas, independentemente do método utilizado, o importante é ter consciência do problema e da necessidade de solucioná-lo. Algumas obsessões e compulsões podem até soar engraçadas, mas outras são capazes de atrapalhar completamente a vida do portador, comprometendo, inclusive, seu convívio social.
*Natália Raposo tem sido encontrada com mais frequência em Um Pouco de Bossa, mas toda sexta-feira lembra que esqueceu de escrever sobre Síndrome de Tourette aqui neste blog.
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2 comentários

  1. Natália, este seu texto me fez pensar o quanto uma compulsão pode ser confundida com um tique. Vi hoje uma reportagem sobre o tenista Rafael Nadal. Em um só jogo, ele repetiu um “ritual” umas 80 vezes. Era uma sequencia :puxar a cueca, levar à mão direita à cabeça, dar uma “arrumadinha” no cabelo, no boné, dar uma “puxadinha” na camiseta , dentre mais alguns que não lembro. Ele repete sempre essa mesma sequencia antes de iniciar uma jogada. Um repórter do CQC fez uma gozação com ele sobre a puxadinha na cueca. Me lembreou muito um dos tiques do meu filho: elevar a mão à testa, dar uma batidinha na testa como se estivesse se benzendo,uma batidinha na cabeça e em seguida uma puxadinha na camisa. Se vc souber de algo à respeito, por ser ele uma celebridade, seria interessante .
    Maria Elenise castilho
    eleniseca@terra.com.br

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  2. Lendo esse texto,tive a certeza de que conheço n pessoas que tem coisas parecidas com o que acabo de ler,uma amiga que tenho é o exemplo vivo,vive limpando tudo toda hora chega a irritar,uma prima que bate na gente quaqndo conversa,o tempo todo. O UNIVERSO DE PESSOAS COM TIPOS DIFERENTES DE PROBLEMAS DESSA NATUREZA,É MUITO VASTO. joana Raposo

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