É tique ou TOC?

A Globo usa o termo “tiques”
(Crédito: Sportv.globo.com)
*Natália Raposo
Na sexta-feira passada, eu escrevi sobre o Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) em comorbidade com a Síndrome de Tourette, e a Elenise Castilho comentou sobre as semelhanças e consequentes confusões entre tiques e compulsões (rituais realizados em respostas às obsessões causadas pelo TOC), citando o caso do tenista espanhol Rafael Nadal, a respeito do qual são feitas matérias frequentemente explorando suas “estranhas manias”.
Sobre a performance de Nadal em quadra, a Elenise comentou: “Me lembrou muito um dos tiques do meu filho: elevar a mão à testa, dar uma batidinha na testa como se estivesse se benzendo, uma batidinha na cabeça e em seguida uma puxadinha na camisa.”
Eu não tenho costume de assistir a partidas de tênis e só conheço esse tenista porque é impossível não conhecê-lo de nome, mas, depois desse comentário, pesquisei sobre o assunto. Encontrei muitas menções às “manias” de Nadal, sobre as quais a imprensa nacional e estrangeira já fala há anos, mas notei que em nenhuma entrevista ele diz sofrer do transtorno.
Nessa matéria, o GloboEsporte.com acompanhou a semifinal do Aberto de Tênis do Brasil e contabilizou os movimentos e as ações repetitivos(as) do tenista, somando 925 compulsões que a reportagem erroneamente chama de tiques ao longo de quase 2 horas de jogo. Alinhar as garrafas de água simetricamente, por exemplo, não é um tique, mas sim configura comportamento de TOC.
“O mais popular – e curioso – dos hábitos de Rafael Nadal é a puxada na cueca. A cada ponto, o tenista espanhol faz ajustes na parte de trás de sua roupa de baixo. Em alguns momentos, o tique vem duas vezes antes das jogadas. Contra Alund, o atual número 5 do mundo disputou 153 pontos e puxou a cueca 172 vezes” – diz o texto da reportagem.

Pesquisando mais, achei um post nesse blog falando sobre TOC e citando uma matéria do jornal espanhol La Vanguardia na qual uma psiquiatra explica que todos temos comportamentos obsessivos e compulsivos ao longo da vida e que isso representaria, segundo ela, uma forma – comum a todos os humanos – de organizar o mundo. Em dado momento da entrevista, a psiquiatra se remete ao tenista Rafael Nadal:
“-El otro día, el tenista Rafa Nadal, en la final de Roland Garros, ponía dos botellas de agua simétricamente colocadas delante de sus pies, bebía de una, la tapaba, bebía de la otra, la tapaba, y las dejaba en el suelo colocadas simétricamente otra vez. Este ritual lo repitió cada vez que bebió agua. Pero esto no significa que tenga TOC, aunque esto sea un comportamiento típico del TOC. Si tú te fijas por la calle en las personas, ves muchos comportamientos de este tipo.”
Não convencida pelos argumentos da psiquiatra (psiquiatras não precisam ter sempre razão!), continuei procurando e encontrei esse texto: Rafa Nadal, sus obsesiones y aquella final de Wimbledon 2008. O próprio título já fala em obsessões, e não em tiques, como no caso da matéria da Globo, e diz que a forma de Nadal se concentrar e se preparar para uma partida é “quase a forma de um TOC”. Em seguida, apresenta um trecho da biografia Rafa. Mi historia, escrita pelo jornalista John Carlin junto com Rafael Nadal. O primeiro capítulo da biografia pode ser lido nesse link de El País.
Li quase todo o primeiro capítulo do livro em busca de evidências deixadas pelo próprio biografado de que suas ações caracterizam sim TOC, e não tiques como os da Síndrome de Tourette, por exemplo. No caso da Tourette, não há lógica (nem mesmo na cabeça do portador) para executar os movimentos involuntários, enquanto que as ações que manifestam o TOC são resultado de uma lógica que faz sentido para quem está executando o ritual, como pisar apenas no piso preto do calçadão porque se, por acaso, a pessoa pisar no branco, o mundo explode.
Aqui, destaco trechos que, para mim, deixam claro que o tenista sofre de TOC, apesar de nunca ter assumido publicamente. Pode ser que ele nem seja diagnosticado, e, ainda que seja, não é obrigação dele falar a respeito disso.

“Me senté, me quité la chaqueta del chándal y tomé un sorbo de agua de una botella. Luego, otro de otra botella.
Repito siempre estos movimientos antes de que dé comienzo el partido y en cada descanso entre juego y juego, hasta que el encuentro finaliza. Un sorbo de una botella, otro sorbo de otra. Luego dejo las dos botellas a mis pies, delante de la silla, a mi izquierda, una detrás de la otra, en sentido oblicuo al lateral de la pista. Algunos lo llamarían superstición, pero no lo es. Si fuera superstición, ¿cómo se explica que haga siempre exactamente lo mismo, gane o pierda? Es una forma de situarme yo en el partido, de poner orden en mi entorno para que se corresponda con el orden que busco en mi cabeza.

[…] 

La última parte del ritual, tan importante como los preparativos anteriores, consistía en recorrer con la vista las gradas del estadio y buscar a los miembros de mi familia entre el gentío que atestaba la pista central, para situarlos en las coordenadas que yo había trazado en mi cabeza.”

Ele pontua que repete os movimentos como uma forma de se situar na partida, de pôr ordem no ambiente, a mesma ordem que ele busca dentro da própria cabeça; ou seja, o bom funcionamento das coisas depende da realização dos rituais, pois, do contrário, o próprio fluxo de pensamento dele estaria comprometido. Mais ao final do trecho destacado, ele mesmo se refere ao seu processo de preparação para o jogo como um ritual. Não acho que ele esteja falando no sentido de “ritual de TOC”, mas é isso que fica evidente.
Voltando ao comentário da Elenise Castilho… sim, uma compulsão (ritual) pode ser facilmente confundida com um tique, assim como uma mania pode ser entendida como uma compulsão.

*Natália Raposo escreve às sextas-feiras sobre Síndrome de Tourette.

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