Humberto Santos: Nereu e Eu

Humbero Santos é Jornalista Esportivo

Se você procurar no dicionário o significado da expressão futebol raiz vai encontrar lá, ao lado, estampado, Nereu Pinheiro. Meu primeiro contato com Nereu foi ainda na faculdade. Meu projeto de conclusão de curso era um vídeo sobre o lado nada glamouroso do futebol. A vida sofrida da enorme maioria dos jogadores profissionais que nunca chegam à fama. Tinha que entrevistar Nereu. Óbvio. O talento dele não era acadêmico. Era prático. Mas era um dom. Revelou um sem número de craques e sabia, como poucos, o caminho das pedras para descobrir e alavancar um jovem talento. Dentro de campo, Nereu seria Garrincha. Era habilidade pura, quase beirando a ingenuidade. Não existe ninguém que conviveu com ele que não tenho um causo engraçado a contar. Dava pra fazer um livro. Eu tenho vários. Das coberturas esportivas. Chegava na redação e os colegas logo se chegavam para ouvir a última de Nereu. Meu dia era mais feliz com ele. Sempre. E por isso eu agradeço todo dia por ter tido o privilégio de conviver, mesmo que por pouco tempo, com Nereu. Na última vez que o vi ele olhou pra mim espantado e disse: “Rapaz, como tu emagreceu. Olha, me diz aí o segredo. Eu tô precisando perder essa barriga”. E caía na gargalhada. Tudo com Nereu terminava em gargalhada. O futebol raiz é assim. Joga-se para ser feliz, não para ganhar ou fazer gol. Nereu era assim. De maneira não intencional, ele nos fazia feliz. Nos lembrava da pelada nos campinhos de barro. Da verdadeira essência do futebol. Vai em paz, Nereu. Vai com Deus.