A decisão – CLODOALDO TURCATO (CODO)

Escrito ontem…


E o Joca era sargento do glorioso exército brasileiro. Orgulho da família, servia no quartel do Curado como cozinheiro, função que abraçou com grandeza, pois jamais o levaria para perto das armas e fartava sua cozinha em casa. Todas as semanas, em surdina, Joca conseguia com fornecedores nacos de carne, insumos e derivados de gado que sustentavam ele e sua linda mulher, a Dália.
Oh Dália! Que formosura. Que tetas bem postas, que bunda e que sorriso. Quando ela dizia “meu Sargento” ele se derretia. Sempre pronta, disposta, querendo mais. Vergonha dizer, mas tinha dias que o Joca quase entregava os pontos. Eta mulher danada!
Então, Joca escolhia sempre a sexta-feira pra levar os ganhados pra casa. Tudo tinha que ser ligeiro, sem vistas e, claro, por baixo dos panos. O guarda de plantão nem revista fazia. Sempre bem servido na cozinha do quartel não iria fazer uma desfeita com o cozinheiro.
_ Passe. Mas se alguém perguntar, boca de siri!
E assim Joca fazia seu câmbio e a soldadesca bajulava.
Tal foi que certa sexta-feira Joca recebeu a notícia de que seu turno tinha mudado. Não seria mais as sextas, mas nas segundas. E a coisa era praquele dia.
Sexta-feira e ele mantendo guarda. Dália ia partir o coração. Bom…
O que estava feito estava feito e não podia ser desfeito.
De qualquer maneira sua esposa não poderia ficar sem carne. Isso não era certo. Então, sem pedir permissão ao Tenente, deixou o quartel e partiu para casa avisar sua mulher. Aqueles eram tempos sem celulares, tempos de que a comunicação ainda engatinhava.
Joca passou na cozinha, tomou meia costela de boi e partiu, quieto, sem dar pela saída. A residência era perto, coisa de meia hora bem andada.
Chegou no barraco estava pra escurecer. E de fora ouviu gemidos. Parecidos com de Dália. Quase o mesmo. Que nada! A danada estava vendo algum filme de sacanagem. Há! Ia fazer uma surpresa. Pegaria ela com a mão na massa e ainda ia arrancar algum carrinho depressinha. Ela nem ia imaginar a loucura que seria aquilo.
E não é que foi!
Abriu a porta devagar, sempre calculando cada passo e com o incômodo do naco de carne nas costas. Foi. Foi. Foi. E…
Era Dália mesma.
Os seus olhos só podiam estar mentindo. Alguns segundos se passaram. Não era engano. Dália estava com outro. E este outro não era qualquer um. Era conhecido na comunidade, lutador de karatê, grande, alto, forte como um touro. Joca não estava armado. Só tinha os punhos e aquilo não acabaria bem. Estava em desvantagem e Dália gemia com tanto gosto que parecia um abuso interromper.
O que fazer?
Pensou alguns segundos. Talvez menos que cinco. Coisa rápida. Virou as costas devagarinho, pé ante pé, e foi pra rua. Andou sem noção por alguns metros e só então percebeu que estava com o naco de costela nos ombros. Olhou para todos os lados. Tinha que se livrar daquilo, ou tornar ao quartel com seu roubo. Estava a perigo, afinal se o pegassem com a costela nas mãos teria que se explicar ao Tenente, e não tinha explicação. Seria sua expulsão sumária.
Expulso e corno!
A sua frente estava uma lixeira. Foi até ela e despejou a costela. Em seguida partiu para o quartel decidido a pegar sua pistola e matar Dália e o tal campeão de karatê.
Entrou no quartel bufando e foi ao seu aposento. Carregou a pistola e decidiu acabar com tudo.
Bem. Mas as coisas nem sempre são como se planeja.
Ao sair encontrou com o Tenente, que por acaso fumava no banco da frente se seu aposento.
_ Tenente! – Disse postando-se em posição de sentido e em continência.
O Tenente disse à vontade. Tragou seu cigarro e perguntou:
_ Já preparado pra seu turno, Sargento?
Joca engasgou.
_ Não… Bem, falta um pouco ainda, Senhor.
_ E por que não está descasando?
Que desgraça. Se contasse que ia sair teria que explicar a carne, o motivo da saída e quando saiu. Ia ter que contar o negócio todo. Como explicar que sabia da traição, da mulher, do que tinha acontecido? Como explicar que fora pra casa sem autorização?
O negócio era engolir seco.
_ Bem, Tenente, hoje tô meio sem sono.
_ Aceita um cigarro?
Joca aceitou.
Naquela noite Joca passou seu turno imaginando como seria explodir a cabeça daqueles dois com o fuzil que mantinha guarda. Pensou nas várias maneiras de atirar, onde atingiria, como faria os disparos e um amontoado de coisas que um homem de verdade faria. E choveu. Choveu pra danar.
“Essa chuva vai obrigar o negão dormir com Dália”.
A decisão era simples: deixar o exército com desonra e cumprir seu papel de homem ferido ou permanecer calado e na folga resolver tudo com diplomacia, permanecendo como Sargento. Sargento corno, se diga.
Ficou com o exército. Cobraria de Dália noutro dia.
É. Como dissemos: a vida não é como se quer.
Dália soube por boca miúda que Joca vira tudo e pinoteou. Estava querendo outros ares mesmo.
Quando Joca chegou em casa carregado de raiva, encontrou um bilhete de despedida dizendo apenas que tinha sido bom enquanto durara.
“Adeus, meu Sargento!”
Hoje Joca chora de saudades.

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